terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Estórias de Alhos Vedros

Vive e deixa viver(ao Manuel Neto)
Quando o questionavam sobre seu o modo de vida, Manel Neto, respondia imperativamente: "quem vai vai, quem está está". Sentado à porta da taverna, mesmo no centro da Vila, por onde passavam conhecidos e desconhecidos, Manuel Neto trazia consigo um curriculum invejável: contava-se que nas inúmeras incursões ao balcão da tasca, era capaz de beber um garrafão de vinho, acompanhado de uma e apenas uma azeitona. Se é verdade ou não, nem sabemos (nem interessa para o caso)... mas à porta da tasca, lugar sacralizado pela sua presença diária, o taberneiro colocou uma cadeira onde o religioso se sentava e de onde poderia ver o mundo, claro está o seu mundo, mergulhado no licor que lhe dava cor à vida. De lá, perante o mundo suspirava aforismos sábios sobre o que lhe parecia ser a vida. A mais profunda e sábia foi aquela, cuja mensagem afastava todos aqueles que lhe queriam impor uma forma de vida, com a qual não se identificava: "amigo não empata amigo; inimigo muito menos"; mensagem essa, muitas vezes expressa no aforismo: "quem vai vai, quem está está".E para quem parecia nada saber de ética ou de respeito pela vida dos outros, o Manel, analfabeto de formação, dava lições de alta cultura: quem passa deve seguir o seu caminho e deixar estar quem está, na sua vida, como acha que deve estar.Figura bem popular, amigo de toda a gente, pacifista por integridade, o que não quer dizer que estivesse isento de algumas súbitas fúrias, o Manel Neto era saudado por todos e a todos saudava.Há uma estória engraçada que se conta a seu respeito. Uma vez que foi ao (saudoso) Cinema de Alhos Vedros com o seu filho "Lhites", ao ver aparecer o Leão da Rank Filmes que lhe serve de genérico, vira-se para ele e diz: "Vamos embora "Lhites" que o pai já viu este filme." Uma outra das suas imagens de marca era o seu trinado dentário. Enquanto esbaforia os mais enternecidos vapores etílicos, rangia os dentes de tal forma que pareciam afinados pares de castanholas, findo do qual elegantemente rematava: "Aí, Cão da Lama".Com Carisma e com princípios, que faltam a muita boa gente hoje em dia. Saber viver e deixar viver é um princípio ético muito importante. Nele se resume muito do que se diz (ou se pode dizer) sobre a liberdade individual. Liberdade de cada um poder escolher a sua própria vida, sem imposições exteriores, desde que essa Liberdade individual não interfira com a Liberdade dos outros. Assim se resumia o Aforismo Kantiano, de que "a minha liberdade termina quando começa a do outro", da mesma forma que Manel Neto reafirmava o postulado: "Quem vai vai, quem está está"
Luís Mourinha
Luís Santos

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

IV Bienal de Pintura de Pequeno Formato. Prémio Joaquim Afonso Madeira

Vai realizar-se em Alhos Vedros, de 13 a 21 de Junho de 2009 a IV Bienal de Pintura de Pequeno Formato. Prémio Joaquim Afonso Madeira, organizada pela Câmara Municipal da Moita, Junta de Freguesia de Alhos Vedros e Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros (CACAV).
Todos os trabalhos deverão ser enviados ou entregues na Junta de Freguesia de Alhos Vedros, na Rua Cândido dos Reis, 2860 Alhos Vedros, no período de 30 de Março a 30 de Abril de 2009.
Será realizada uma Exposição dos trabalhos seleccionados pelo júri no Moinho de Maré de Alhos Vedros, que irá decorrer no período de 13 a 21 de Junho de 2009.
Para a obtenção do Regulamento e Ficha de Inscrição, devem os interessados contactar com as entidades acima referidas.
Para mais esclarecimentos agradecemos o contacto para: 932214015.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Poema do dia


As fotografias

Era quase no inverno aquele dia
Tempo de grandes passeios
Confusamente agora recordados -
A estrada atravessava a serra pelo meio
Em rugosos muros de pedra e musgo a mão deslizava -
Tempo de retratos tirados
De olhos franzidos sob um sol de frente
Retratos que guardam para sempre
O perfume de pinhal das tardes
E o perfume de lenha e mosto das aldeias

in Dual de Sofia de Mello Breyner Andresen
Círculo de Leitores, Moraes Editores, Lisboa 1972

domingo, 18 de janeiro de 2009

Etimologia de Alhos Vedros

«Vedros» deriva da palavra latina «Vetus» que evoluindo através dos séculos, deu origem ao nosso vocábulo «Velho» e «Vedros». Assim, «Velhos» ou «Vedros», o significado é idêntico. Até aqui não há dúvidas!As dificuldades surgem com a palavra «Alhos». Querem os entendidos, que tenham vindo de «Alius», também palavra latina, que significa «outro» (de muitos) em Português. Porquê então «Alius Vetus», nome dao a esta povoação?Os historiadores têm discutido o assunto, sem contudo terem chegado a uma conclusão, por todos aceite. Seja como fôr, Alhos Vedros «sabe» a latim. Foi sem dúvida povoação a que os romanos deram o nome e de certo até fundada por eles, provavelmente no Séc. I a.C.. A sua actividade principal teria sido a exploração do sal, que faziam transportar para Roma ou utilizada na salga do peixe.(…)Em 711 da nossa era, surgem com todo o ímpeto os árabes vindos do norte de África; dois anos depois, tinham conquistado quase toda a Península. Esta Terra tornou-se, assim, uma possessão moura.Após alguns séculos, surge o esforço enorme da Reconquista Cristã. A bravura de Afonso Henriques, conquistador de Palmela, empurra para o Sul os árabes desas regiões, voltando Alhos Vedros novamente à dominação cristã. Começa, assim, uma nova era para a antiga povoação romana, com seus progressos e retrocessos, tão comuns na história dos homens.Que daqui em diante só conheça o progresso…”ALVES, Carlos F. Póvoa - Subsídios para a História de Alhos Vedros. Edição do autor, 1992, p.76.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Poema do dia


O POETA HEMOTRÁGICO

Estando um poeta à beira de um ribeiro,
ingeriu toda a tinta do tinteiro.
Então deu-lhe tremenda uma veneta
como se ele mesmo fosse uma caneta:

e enquanto digeria ele escrevia
- da poesia mantendo alta tensão -
tudo quanto em torrente ao coração
da sua veia poética afluía.

Se a tinta não gastar toda primeiro
e se uma indigestão o não afecta
ainda vai fazer um poema inteiro
com a pena hemotrágica o poeta.


in, Retratos à La Minuta, de José Colaço Barreiros. Lisboa 2006

“Escola Aberta Agostinho da Silva”

A “ESCOLA ABERTA” como o próprio nome deixa desde logo antever, está aberta à participação e às ideias de todos quantos se queiram juntar nesta aventura.
Não será uma escola igual às outras, onde uns aprendem o que os “mestres” têm para lhes ensinar, seguindo um caminho previamente traçado e que vai dar onde “outros” pensam que será melhor para nós.
Não será uma escola com paredes opacas que a isolam do mundo e impedem a entrada à luz dos sorrisos, do espanto e ao murmurar das águas da inquietação.
Será uma escola de perguntas, de abraços fraternos e de utopias – e das outras coisas todas, que fazem o caldeirão onde fervilha a poesia e o sentido da vida.
A “Escola Aberta” será o que nós sonharmos e funcionará como nós quisermos!
Nesta Escola poderão acontecer Ciclos de Estudos (de curta duração), Cursos Livres (de duração mais prolongada), Seminários e Workshops ou uma Escola de Adultos.

Princípios Estruturais

1.Liberdade
2.Participação Activa
3.Desenvolvimento pessoal e Social
4.Universalidade
5.Identidade
Vem. Podes trazer um amigo também!
Traz uma pergunta ou um sonho contigo,
Um navio ou um porto de abrigo,
Com sextante ou à deriva. Mas vem.
Pela CACAV
A Coordenadora da Casa Amarela/Escola Aberta Agostinho da Silva

Era uma vez...

Uma tarde, algures em 1986, no Café dos Valérios bebeu-se o Moscatel da "iniciação". Teria nascido a CACAV, hoje reconhecida por todos como um espaço (na altura, sem espaço definido), onde fervilhavam ideias e promessas de intervenção cultural. Não eram muitos a erguer o copo de Moscatel. Nem me lembro com exactidão quantos eramos naquela "reunião" promissora, que trazia esperanças e renovadas motivações. Mas de certo lá estava o Fosch, estudante de Antropologia, com uma visão "estrangeirada" das coisas e do mundo (por estudar em Lisboa, em contacto com o novo mundo), o Armindo na sua postura peculiar e crítica (com uma visão política e filosófica das coisas, muito para além do Senso Comum) e o Raminhos já professor, cursado em Sociologia, com ideias inovadoras mais consistentes sobre o que poderia ser a Vila de Alhos Vedros, com mais dinâmica do ponto de vista cultural.Estavam mais pessoas, que a minha memória não alcança, com todo o rigor. Há uma imagem difusa, que me faz recordar do Carlos (com o seu penteado alinhado pelo Setúbal), do Luís Carlos Santos (cabelo comprido e desafiador, também antropologo iniciante), o Henrique Contente (jovem empresário na cidade grande - Barreiro) e de outros que também se enebriaram com a bebida iniciática e que mais tarde deram vida a experiências fantásticas que ficaram inscritas na História de Alhos Vedros. E outros e muitos outros que continuaram a "obra", depois de algumas saídas e auto-exclusões, entre eles o Carlos, o Croca, o Vitor Santos o Carlos Vardasca e tantos outros.A CACAV teria as suas sementes numa crescente necessidade de contra-posição a uma certo "marasmo" e uma certa vivência que apenas oferecia a "esquina" o alcool e a droga, fenomeno emergente nos anos oitenta.Depois vieram as actividades e que foram tantas, que já nem consigo recordar. A Rádio Opção, que foi adoptada de um Projecto do Luís Paulo Rosa (o Estúdio 54), as famosas Noites de Lua Cheia, os contactos com o grande Agostinho da Silva, os Atliers de Arte, as Escola de Música, as Viagens temáticas sobre o Ambiente, a Escola Aberta, as Homenagens a José Afonso, enfim, um enorme curriculum, que conferem à CACAV o estatuto de uma "jovem madura", com muito para contar.Muitos foram os episódios e as experiências partilhadas. Muita gente por lá passou e se juntou a este projecto. Lembro de uma estória de Siglas e de Acrónimos, quando se pretendia baptizar a Cooperativa.A propósito de Siglas e afins e na altura quando a CACAV se estava a iniciar cheguei a propor a sigla/ acrónimo CACA. Achava eu, no alto iluminado dos meus 20 e poucos anos que era uma sigla com mais impacto. Valeram-me a experiência e o bom senso de pessoas mais maduras como o Raminhos (o Grande Raminhos), que me conseguiram demover.Fiz esta proposta porque achava que nos iriam ouvir, isto num tal Alhos Vedros (dos anos 80) em que nada acontecia. Era o que dizia o Luís Fosh, quando pronunciava uma das suas palavras preferidas: "temos que sair do Marasmo"."Marasmo" para dizer que nada acontecia e que o mundo em geral e o velho burgo em particular estava à beira da alienação.Hoje reconheço que marasmo e alienação é o que vivemos hoje se deixarmos de olhar com atenção o que está à nossa volta. Quanto à CACAV faço-lhe a devida continência pelo trabalho desenvolvido até hoje e reconheço que, de modo nenhum, lhe assentaria o acrónimo de CACA, mesmo que isso pudesse ter o impacto que até poderia ter (quem sabe!?).Um abraço à própria (CACAV) e o reconhecimento pelos serviços culturais que prestou e presta ao Concelho da Moita.Já agora: quantas Estórias teriamos que contar sobre esta nobre “Instituição” a que toda a gente reconhece com CACAV? Falta escrever sobre a CACAV! Quem será capaz de lançar a primeira letra? Neste caso a segunda letra, com conteúdos capazes de fazer jus ao mérito desta "Casa" fantástica e a todos os que ao longo deste tempo nunca (repito: nunca) abandonaram o "barco" e que, mesmo à bolina, navegaram bem longe, para além dos preconceitos e da inactividade castradora. E agora neste momento apetecia-me falar do Raminhos e de tantos (poucos!) outros que sempre estiveram à frente deste grande fenomeno cultural, a que por mérito e reconhecimento público, se decidiu chamar: Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros.P.S. Que me desculpem, se a minha memória me fez esquecer alguém ou alguma actividade das muitas, que foram desenvolvidas pela CACAV. Penso que outras pessoas, com mais presença e conhecimento do processo de crescimento desta enorme "Instituição", se deveriam sentar ao Computador e deixar o registo do que foram estes vinte e três anos de notável existência.
Luís Mourinha